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aos prantos

se alguém conhecesse esse gosto
tbm deixaria de existir
e mesmo que eu tivesse nome, rosto
quem ía poder me ouvir?

eu sou o vulto
escondido no muro
liso de onde brota
um sonho vazio

Oculta, pois não choca
Não protege do frio

desconhecida figura
correndo nua
pelas ruas que banhaste
à ouro sangrado
das minhas mãos

mais uma moça
e você à solta

mais um braço que se cruza
diante dessa voz rouca

quem mais ousa gritar?

Cidade do Silêncio (Bordertown – 2006)

O título escolhido

Ana Paula Almeida

19h. Entrego a minha última matéria pronta ao editor. Naquele dia foram quatro. Entre redação – faculdade – redação, mal havia dado tempo de comer alguma coisa. Meu pensamento era só correr pra casa, comer, descansar. O dia tinha sido estressante, mas normal, em vista de tantos outros. Desde cedo lutava para não chegar atrasada na aula, mas dessa vez também não tinha dado. Perdi a primeira. Sai perto das seis da noite e voltei para a redação.

19h. Entrego minha última matéria pronta ao editor. O telefone toca e é mais uma mulher. No Alto da Guabiraba, na RPA-3, a população espera a chegada do IC e do IML. Uma colega de trabalho avisa ao editor. “Vamos fazer, é uma mulher”. O entusiasmo dele poderia contagiar quem estava próximo, o dia estava “fraco” devido às poucas ocorrências e uma mulher ganha sempre mais destaque. Estava arrumando minhas coisas quando ele toca no meu ombro. Não tenho escolha. Ele não agradece, sorri e me promete uma folga. Três horas depois deveria estar de volta à redação com a matéria pronta.

Chamei o fotógrafo e o motorista. Pelo menos quem nos guiava era um dos meus melhores colegas de trabalho. Fiquei mais calma quando descobri que era o carro dele, mas estava irritada por sair à noite, sendo meu estágio, pela manhã. Sem muita vontade de conversar deitei no banco traseiro quando já estávamos longe da redação. Deitar é imperdoável e dormir é demissão na certa. Mais de quarenta minutos depois chegamos ao local. Carro não entra e deveríamos descer uma escadaria mal construída.

Estávamos, ali, em um beco de uma comunidade pobre. As expressões costumam ser parecidas. O medo, a tensão e a tristeza se misturam num emaranhado de rostos que se esticam para ver o ocorrido. Chegamos. As pessoas já acostumadas evitam me olhar nos olhos. Estão treinadas. Ninguém sabe nada, ninguém viu nada. Espero meu amigo e seguimos descendo pelo beco. Encontramos policiais e questionamos sobre a demora dos técnicos. Quando ligaram para a redação a comunidade já esperava mais de duas horas.

O policial olha pra mim e sorri. Ele já me conhece, e eu, a ele. Geralmente trabalhamos no sábado e a polícia é sempre uma fonte de informação. Enquanto ele se distrai conversando com meu amigo pego a ficha técnica que estava nas mãos dele. Começo a ler. Nome, idade, sexo, filiação, motivo, possíveis suspeitos. Fico atordoada. Ela tinha 16 anos. Pergunto ao PM os campos que estão em branco e são normalmente os mesmos. Ele me diz que ela era “envolvida com o tráfico de drogas”. Estou acostumada a ouvir isso, não me espanta. Minha expressão, porém, denunciava a insatisfação com a resposta.

Continuo descendo. O fotógrafo já estava pegando os melhores ângulos da menina. O IC chega. Começo a conversar com várias pessoas ao meu redor e todas não sabem – ou não querem – dizer o que aconteceu. Ouço uma menina que chorava e questiono se é parente. Ela me abraça, diz que era amiga e num ato desesperador olha meu crachá e se afasta rápido. Me aproximo de outras que estavam consolando ela. “O namorado morreu há um mês”. Desconfio e quero conversar com os pais.

Antes de continuar a busca pela família, devo chegar mais perto. Não consigo, mas devo. Começo a tremer e meu amigo percebe. Abraça-me. “Cheguei ao meu máximo”. Ele vê minha aflição e pede calma e força. Olho para ela. O rosto coberto pelo cabelo e por grande quantidade de sangue. Ele diagnostica. “Um tiro de 12, na cabeça, por trás. A bala saiu na frente”. Olho para ela. Uma menina. Deitada, calma, com os olhos fechados, nariz afilado e boca carnuda. Vestia uma saia jeans, uma camisa colorida e calçava havaianas. O IC remexe atrás de indícios de briga e resistência. Não há.

Um homem magro, de barba quase branca, com um olhar distante e sobrancelhas grossas me aborda. Era o pai. Ainda em choque, me conta que a menina saiu de casa para morar com o namorado, mas voltara depois do assassinato dele. Quero falar com a mãe. Ele me mostra uma senhora de 40 anos, com aparência de 60, que soluça. As lágrimas não rolam mais pelo seu rosto. Ela não quer falar comigo, mas eu insisto. Com os olhos sempre cravados no chão, a mulher me conta que a filha saíra para dar uma volta. Avisou em casa. Com um pouco mais de tempo, ela confessa que no dia seguinte a menina iria depor no processo de investigação da morte do namorado.

Subo a ladeira apressada. Passo pelo policial e questiono sobre o depoimento da mãe. Isso não poderia ser caracterizado como “envolvida com drogas”. Era muito mais do que isso. Sempre é. Ele diz que não sabia, não altera a ficha e avisa de mais um chamado. Era em Olinda. O fotógrafo sorri e diz que nosso expediente terminou. “O de Olinda, só quando a equipe da madrugada chegar”. Nos cumprimentamos e seguimos para o carro. Converso sobre o que descobri com meu amigo que nos guia de volta para a redação. Ele não dá muita importância. Pede para eu escrever isso na matéria. Falo sobre o péssimo trabalho dos policiais. Se já não confiava, agora é total a minha descrença com aquele tipo de investigação.

Chego à redação e escrevo. Consigo colocar tudo que ouvi. Meu editor lê e reclama. “Está muito emotivo”. Reescrevo e com a linha lide, sublide e texto imparcial ele agradece. Escrevi o ocorrido, o depoimento da mãe e da amiga, mas a afirmação do policial ganha destaque. “Morre uma integrante do tráfico”. É a última linha que leio da minha matéria editada: o título escolhido pelo meu chefe.

Manuela Andrade

Era sábado de tarde e minha irmã mais nova queria ver um filme e comprar uma revista. Até então, tudo na mais calma serenidade até que nós chegamos à banca. Assim que colocou os olhos na prateleira, Luísa, minha irmã de onze anos automaticamente pegou uma revista. Quando olho para a capa vejo uma série bonequinhas pré-adolescentes com roupas mais erotizadas do que a da Britney Spears no último clipe. Neste momento, confesso que levei dois choques; saber que minha irmãzinha não ia comprar um gibi da Magali de sempre e tentar engolir que ela iria levar aquelas marionetes esqueléticas em quadrinhos pra casa. Tentei através dos meus incansáveis argumentos que ela procurasse outra coisa, mas a verdade é que não tinham muitas opções. Ou seja, caso perdido.

Na locadora, a mesma decepção, a número ínfimo de desenhos animados ou filmes infantis que minha irmã ainda não tinha visto não mereciam atenção.

Deixei para lá, até que o fato começou a se repetir. Assim, após diversas idas à banca e à locadora pude, então, comprovar a minha tese. Não existe uma preocupação em produzir filmes e revistas interessantes (não me refiro a HQs, pois o aceso é mais restrito) para crianças de onze anos, nem de dez, nem de nove, nem de…

Desta maneira, os pirralhos acabam consumindo, muitas vezes, a reprodução de produtos para adultos em versão infantil. Como é o caso da revista Witch, que parece uma versão da Capricho para crianças. Os anúncios publicitários e o merchandising se confundem em toda a publicação, propagando da forma mais sonsa o consumismo doentio como uma qualidade humana. Além disso, a revista comete o absurdo de anexar anúncios de produtos de beleza que não tem o menor cabimento em serem utilizados por crianças; as quais muitas vezes não terão a menor capacidade de manuseá-los.

Já em relação à produção fílmica, fica complicado realmente fazer uma generalização assim, afinal de contas clássicos como A Viagem de Chihiro existem e alguns exemplares de Snoopy empoeirados ainda estão no fundo das locadoras em VHS. Mas, no grosso, o que sobra são as megaproduções Pixar e Disney que dizem pouco sobre reais conflitos das relações humanas. Nos filmões hollywodianos produzidos para criança as metáforas funcionam como mera alegoria, mera piada.

Como estimular crianças as quais sua inteligência é subestimada constantemente para começarem a realizar reflexões menos superficias sobre a realidade? Como instigar a leitura se nas revistas “pops” as cifras ocupam mais espaço que a informação? De que maneira apresentar a arte como um instrumento de contestação mais adiante se na infância ela funciona apenas como indústria de risos?

Um dia ainda dou de presente uma locadora e uma biblioteca pra Luísa.

Para divagações acadêmicas sobre o tema…

Manuela Andrade

Resolvi dedicar meu primeiro post a uma crítica a um site. Mas não por deboche, tampouco falta de assunto. Faço isso no intuito de abrir os olhos de bem aventurados internautas diante algumas atrocidades espalhadas por aí.

A internet abriu um espaço brilhante para a livre circulação de informação. Mas, como em qualquer outro espaço, a rede mundial e computadores, infelizmente, nem sempre é utilizada da forma correta tanto pelos publicadores como pelos leitores. No âmbito jornalístico o acesso a sites que procuram contestar o conteúdo dos meios de comunicação de massa se dissemina e propicia um espaço gigante para o debate de assuntos de interesse público. Como o que se pretende neste ainda tímido, blog, por exemplo. Porém, entretanto, todavia, nem todos os sítios da internet que tem esse propósito merecem ser levados a sério, é o caso do site que inspirou esse post.

Vasculhando um desses sites dia desses curiosamente procurava por algo com este perfil de mídia alternativa ou crítica de mídia quando me deparei com o fenômeno mais bizarro que já tive notícia. De antemão, informo logo o nome: Mídia Sem Máscara.

 

Como é de praxe minha primeira atitude foi dar uma lida básica no editorial. Para minha desagradável surpresa se tratava sim de um site de crítica de mídia, mas da forma mais distorcida e maniqueísta possível. O site é um tipo de braço armado do neoliberalismo/fascismo que trata a “esquerda” brasileira explicitamente de “leviatã”. Logo neste primeiro texto tive contato com pérolas como: “O que torna as coisas ainda mais difíceis é que nos últimos anos o estímulo geral à expressão de crenças esquerdistas encorajou todos os analfabetos do país a dar opiniões”.

Em todo o editorial eles acusam a esquerda de controlar a mídia e usá-la como instrumento de perpetuação de poder: “Essa manipulação é geral e não está limitada aos militantes ou colaboradores de um partido. A corrente que nos domina hoje é constituída da totalidade da oposição esquerdista dos anos 70”

Gente, não sei se depois destas citações aí ainda preciso fazer mais algum comentário para me fazer entendida, mas não vou perder essa oportunidade. Depois de anos de embates sociais e políticos acredito que exista uma certa crise entre os conceitos de esquerda e direita. Em primeiro lugar não acho que para ninguém existe uma linha divisória onde começa um e termina o outro. Principalmente no Brasil, a esquerda passa por um momento de dissidências e reestruturação, portanto fica nebuloso pelo menos para mim, a quem, necessariamente, este editorial se refere. E em segundo lugar, é complicado enxergar a presença da uma esquerda tão onipresnete e manipuladora na grande mídia, visto que a partir do conceito primário de esquerda ela estaria associada ao bem estar da sociedade como um todo. E na verdade, nestes veículos existe uma prioridade para com os interesses econômicos destes monopólios comunicacionais em detrimento a um bem estar mais plural.

Em segundo lugar, faço um comentário à afirmação preconceituosa que se refere a um suposto poder de voz que os analfabetos estariam tendo na mídia. Em primeiro lugar queria frisar que não enxergo essa voz inserida em debates públicos, o que é uma lástima, visto que eles têm por direito esse espaço. O mais comum é encontrar estas pessoas povoando auditórios de programas das tardes de domingo. E isto não ocorre por escolha e sim por falta de espaço mesmo. É claro que existem algumas exceções, mas são apenas exceções. No momento em que os analfabetos do nosso país que chegam ao número de aproximadamente 16 milhões tiverem voz e lugar numa mídia que os traga pro debate um importantíssimo passo será dado. E isto que é ainda um futuro sonho é considerado pelos fascistas do Mídia Sem Máscara como um presente pesadelo.

É esse tipo de atitude midática que perpetua e constrói monstrinhos aptos a articularem superficialmente a favor de seus interesses individuais e econômicos. Quem se interessar em dar uma lida no site vale como experiência importante para enxergar como existem pessoas que conseguem através de um jogo de palavras covarde e mentiroso defender e ostentar descaradamente a indiferença perante o contexto social do país e a alienação disfarçados de contestação.

A quem desejar eu indico a “matéria”: “O bolivarianismo de Lula: como o PT pretende fazer da Rede Globo a sua RCTV” em que eles trasnsformam o controle da publicidade de cerveja como uma ameaça à desestabilização da Rede Globo de televisão. Vale a pena colocar um trechinho: “Trata-se, evidentemente, de um golpe, mais um, contra a imprensa livre. E por que digo que o alvo é a Globo? Porque, afinal, ela concentra boa parte do mercado publicitário de TV — é assim porque é melhor e mais competente”. Como afirma Reinal Azevedo logo no começo da matéria “o texto é um dos mais importantes já publicados neste blog”. Eu concordo, com a leitura de uma simples matéria tive todos os subsídios para me assegurar da palhaçada que está montada ali e esse circo, eu não pago para ver.

Catarina de Angola

“É um mundo asfixiante, em que os fatos são tirados de seu contexto concreto e transmitidos como se fossem eventos fragmentados, sem qualquer vínculo com a história, com a sociedade, com a economia”. Esse é um trecho do texto Uma outra comunicação é possível (e necessária), de José Arbex Júnior e a partir dele percebe-se que é justamente isso que acontece com as notícias veiculadas nos meios de comunicação.

E, infelizmente, boa parte da população que recebe essas informações não tem a oportunidade de contextualizar esses fatos. Essa é a uma das conseqüências do monopólio dos meios de comunicação no Brasil. País que tem uma população com aproximadamente 170 milhões de pessoas e onde apenas famílias controlam a comunicação no País.

E é a partir daí que temos que pensar no lado humano do Direito à Comunicação, que é a proposta deste blog. Nós temos é que lutar pelo Direito Humano à Comunicação. Pois ele deve ser exigido assim como o direito humano à saúde, à educação, ao lazer, à cultura. Tem que ser efetivado pelo Estado, na luta para a TV pública, pela comunicação com qualidade com políticas públicas.

É papel de cada cidadão e principalmente dos comunicadores lutar por uma comunicação de qualidade. Não se deve ficar de braços cruzados, pelo contrário, devemos trabalhar para a difusão do conhecimento e para a democratização, pois não é possível falar de democracia sem passar pela comunicação. E essa mobilização não é de agora, pois como foi colocado por Aline, já existe em todo mundo há muitos anos uma preocupação com a democratização da comunicação. A tecnologia possibilitou a maior interação de todos à comunicação, temos como exemplos os blogs na internet, mas isso não significou que todos tiveram acesso e o Direito Humano à Comunicação.

E os alunos e alunas de comunicação devem lembrar que apesar de não ser uma tarefa fácil, não podemos deixar de cumprir o papel de comunicadores sociais. Porque a entrada no mercado de trabalho é a grande preocupação, futuros jornalistas, e essa luta para entrar nesse mercado é que mexe com a cabeça das pessoas, é que faz parecer tão difícil a luta por um jornalismo sério e ético.

Catarina de Angola

A partir de uma análise não sistemática das matérias publicadas nos três principais jornais do Estado, Diario de Pernambuco, Folha de Pernambuco e Jornal do Commercio, observamos que os enfoques das reportagens são bastante divergentes quando o adolescente é vítima, e quando ele é o autor de algum ato infracional.

Em geral, nas notícias em que os adolescentes são os acusados da prática dos atos infracionais, os jornais impressos dão ênfase a esse fato nos títulos e subtítulos, levando em consideração a questão da redução da maioridade penal Já em situações em que os garotos são vítimas, percebe-se que a cobertura, em sua maioria, é apenas informativa.

Podemos pegar como exemplo a matéria Matadores atacam em frente à imagem da santa no Morro, publicada no Jornal do Commercio, que trazia a notícia do assassinato de dois adolescentes. Sobre a resolução do caso, o jornal apenas diz que um delegado iria ser designado para apurar o crime. Essas reportagens ainda trazem a informação de que existem suspeitas de que as vítimas tivessem envolvimento com drogas.

A exemplo da matéria Jovem assassinado em Sovaco da Cobra da Folha de Pernambuco, que trazia a informação de que um adolescente tinha sido assassinado, mas, segundo “informações coletadas pela polícia entre os moradores da área, a vítima seria viciada em drogas, o que poderia ter alguma relação com o seu assassinato”.Da forma como essa informação foi colocada na matéria, passa a idéia de que o crime contra aquele (a) jovem foi justificado pelo seu suposto envolvimento com entorpecentes.

Porém, a cobertura muda se a criança ou adolescente for de classe média, pois nesses casos o sofrimento da família é enfocado na busca de uma resolução rápida para o caso, a exemplo do caso João Hélio, o menino que foi arrastado por vários km no Rio de janeiro e que comoveu todo o país e que foi extremamente explorado pela mídia nacional e local.

Outro fato recorrente nas matérias sobre crianças e adolescentes pobres é a utilização do termo “menor” pelos jornais. É preciso lembrar que esse termo não é mais utilizado desde a implantação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 1990. É importante destacar que o papel da imprensa é levar a sociedade a informação correta dos fatos, porém, jornalistas e editores devem ter cuidado para que, no exercício da sua profissão, não enfatizem preconceitos, que geram injustiças sociais.

Nara Pinilla

A uma simples olhada nos jornais Folha de Pernambuco, Diario de Pernambuco e Jornal do Commercio revela uma representação das comunidades periféricas orientadas por um forte caráter ideológico, que expõe uma evidente influência dos interesses políticos e econômicos da classe dominante.

Ao fazer uma constante ligação de bairros pobres e atos violentos de modo factual, a imprensa não retrata apenas os acontecimentos da cidade, ela descontextualiza uma realidade social de extremos conflitos e injustiças e contribui de modo decisivo para estigmatização dessas localidades. Pouquíssimas são as tentativas por parte da mídia para discutir essa idéia . Como resultado, temos uma impressa parcial, que não representa um espaço para reflexão e discussão e que continua a legitimar as diversas formas de dominação.

O acesso da população pobre para inserir temas na agenda social ou ampliar discussões continua extremamente limitado pelo local que ela ocupa na estrutura de poder. O espaço que lhe é reservado dentro da cobertura diária, sempre ligado a graves problemas de infra-estrutura ou violência, acaba por tornar-se o lugar onde ela se reconhece e por conseqüência onde sua identidade vai gradativamente sendo forjada.

Apesar dos três jornais terem como público alvo classes sociais distintas e priorizarem temáticas diferentes, eles demonstram estruturas políticas e econômicas muito semelhantes: grupos detentores de várias mídias, cujos donos possuem diversos investimentos econômicos nas mais diversas áreas e grande influência política. Quando as matérias abordam a população pobre os enfoques se mostram bastante uniformes independente dos temas priorizados pelos jornais.

Diante disso é possível concluir que mídia impressa recifense faz uma abordagem diferenciada na cobertura de temas ligados a bairros de classe média e comunidades pobres. Tanto no que diz respeito ao número de inserções de matérias, os bairros de classe média recebem mais espaço, quanto no número de fontes consultadas, sempre se cobra do poder público urgência na resolução de problemas em locais mais abastados. Como no local que ele ocupa diante da violência, sempre os moradores ricos da cidade são as vítimas da violência praticada por pessoas que vivem nos bairros periféricos.

Outro fato bastante grave é o modo como os jornais, especialmente a Folha de Pernambuco, explicam a violência. Grande parte dos casos de morte de moradores de comunidades pobres é explicado pelo suposto envolvimento de vítima com tráfico de drogas, brigas de gangues ou dívidas. Esse discurso legitima a violência como uma prática que assume a posição de sinônimo para justiça. Um morador de comunidade pobre é sempre aquele que praticou um ato infrancional, o assassino, o assaltante, o estuprador, o traficante, quase nunca o suspeito, mesmo que não tenha sido preso em flagrante.

Nessa interpretação da realidade a violência aparece descontextualizada da vida social e extremamente personificada. Emerge como um fenômeno praticado por pessoas pobres, não por conseqüência da ausência do poder público e de políticas sociais.

A exploração da violência acaba naturalizando a morte em uma sociedade retratada como insegura por motivações dadas como obscuras e que não são questionadas.

De acordo com o jornais impresso do Recife, dificilmente ações que tragam benefícios para cidade partem de bairros periféricos. Sua função reside em apresentar problemas para cidade. E é justamente por isso que um acontecimento ocorrido nas comunidade pobres da cidade só recebe grande destaque nas capas e editorias quando está em confluência com essa lógica.